Satélite registra aurora gigante ao redor da Terra e vai observar nosso “escudo invisível”
Uma nova missão espacial conseguiu registrar algo que não era observado dessa forma há quase duas décadas: o anel completo das auroras ao redor do Polo Norte da Terra em luz ultravioleta.
As imagens foram feitas pela missão Smile, uma parceria entre a Agência Espacial Europeia (ESA) e a Academia Chinesa de Ciências.
O objetivo da missão vai muito além de produzir imagens bonitas. Os cientistas querem entender como o campo magnético da Terra reage quando é atingido constantemente pelo vento solar.
E uma das próximas etapas pode produzir uma imagem ainda mais impressionante: uma visão em raios X da fronteira do gigantesco escudo magnético invisível que protege nosso planeta.
Uma aurora vista de uma forma diferente
As auroras normalmente são vistas da superfície da Terra como cortinas verdes, vermelhas ou roxas atravessando o céu.
Do espaço, porém, a estrutura completa é muito diferente.
A câmera ultravioleta da Smile conseguiu registrar praticamente todo o anel de auroras que circunda o Polo Norte.
Segundo a ESA, esta é a primeira missão desde 2008 capaz de observar o anel completo em luz ultravioleta.
E existe outra diferença importante: a Smile consegue acompanhar essa região por períodos de até 45 horas consecutivas, permitindo observar como a aurora muda ao longo do tempo.
O Sol estava mexendo com o campo magnético da Terra
As primeiras imagens divulgadas foram registradas em 24 de julho de 2026, enquanto a espaçonave ainda passava pela fase de testes em órbita.
Os cientistas perceberam movimentos e alterações no anel de luz.
Essas mudanças indicavam a ocorrência de uma subtempestade na magnetosfera terrestre.
Esse fenômeno acontece quando partículas carregadas emitidas pelo Sol chegam até a Terra e interagem com nosso campo magnético.
O que é o vento solar?
O Sol não libera apenas luz e calor.
Ele também lança continuamente para o espaço um fluxo de partículas eletricamente carregadas conhecido como vento solar.
Essas partículas viajam pelo Sistema Solar em grandes velocidades e atingem constantemente os planetas.
Quando chegam à Terra, encontram uma gigantesca estrutura invisível criada principalmente pelo campo magnético do planeta: a magnetosfera.
A Terra possui um enorme escudo invisível
A magnetosfera funciona como uma espécie de barreira ao redor do planeta.
Ela desvia grande parte das partículas carregadas provenientes do Sol e ajuda a proteger a atmosfera e a superfície terrestre.
Mas esse escudo não é rígido.
Quando o vento solar fica mais intenso, a magnetosfera pode ser comprimida no lado voltado para o Sol e alongada na direção oposta.
Parte da energia acumulada nessa interação pode acabar sendo liberada em direção às regiões polares.
É justamente aí que surgem muitas das auroras.
Uma tempestade pode literalmente deformar esse escudo
Durante uma subtempestade, o vento solar pressiona as linhas do campo magnético terrestre.
Essas linhas podem ser comprimidas e reorganizadas, liberando partículas energéticas em direção aos polos.
Quando essas partículas atingem átomos e moléculas da atmosfera terrestre, parte dessa energia é liberada na forma de luz.
O resultado é o espetáculo que conhecemos como aurora boreal no Hemisfério Norte e aurora austral no Hemisfério Sul.
A Smile quer fazer algo ainda mais impressionante
A missão possui quatro instrumentos científicos diferentes.
Um deles é o Soft X-ray Imager, ou SXI, uma câmera projetada para observar raios X.
O equipamento deverá estudar a região conhecida como magnetopausa.
Essa é justamente a fronteira onde o vento solar encontra a magnetosfera da Terra.
Em vez de observar apenas um pequeno ponto dessa região, os cientistas querem obter imagens amplas da interação entre o Sol e o campo magnético terrestre.
Mas como é possível tirar uma imagem em raios X do campo magnético?
O campo magnético em si não brilha como uma lâmpada.
O que os instrumentos conseguem observar é o resultado da interação entre partículas do vento solar e átomos presentes próximos à magnetosfera.
Essa interação pode produzir emissão de raios X.
Ao registrar essa radiação, os cientistas conseguem reconstruir visualmente partes da estrutura e acompanhar como ela muda enquanto o vento solar varia.
A câmera já foi testada usando estrelas que explodiram
Antes de começar suas observações científicas da Terra, a câmera de raios X da Smile precisou passar por testes.
Para isso, os pesquisadores apontaram o instrumento para alguns dos objetos mais energéticos do Universo.
Um deles foi Cassiopeia A, o remanescente de uma estrela que explodiu a cerca de 11 mil anos-luz da Terra.
A câmera também registrou o remanescente de supernova N132D, localizado na Grande Nuvem de Magalhães, a aproximadamente 160 mil anos-luz.
Esses objetos extremamente quentes emitem grandes quantidades de raios X, tornando-os bons alvos para testar o instrumento.
Primeira imagem do escudo da Terra pode chegar em breve
A câmera SXI ainda está passando por ajustes porque, quando aponta para a Terra, recebe uma quantidade maior de luz indesejada do que os cientistas gostariam.
As equipes estão realizando alterações no software e nas configurações do instrumento para reduzir esse problema.
A ESA afirma que a luz indesejada deverá diminuir naturalmente conforme a geometria da missão muda durante a aproximação do inverno no Hemisfério Norte.
A expectativa é que as melhores condições ocorram por volta de meados de outubro de 2026.
Nesse período, a Smile poderá tentar produzir uma de suas primeiras boas imagens da magnetopausa ou da região polar conhecida como cúspide magnética.
Por que isso é importante para quem está aqui na Terra?
O clima espacial não é apenas uma curiosidade científica.
Grandes tempestades solares podem afetar satélites, sistemas de comunicação, GPS e outras infraestruturas tecnológicas.
Compreender melhor como a magnetosfera reage ao vento solar pode ajudar pesquisadores a melhorar modelos utilizados para estudar e prever eventos de clima espacial.
A Smile deve observar centenas dessas perturbações durante sua missão.
É como observar uma batalha que sempre aconteceu acima de nós
O vento solar atinge nosso planeta continuamente há bilhões de anos.
Ao mesmo tempo, o campo magnético terrestre atua desviando grande parte dessas partículas.
A diferença agora é que cientistas estão ganhando uma nova maneira de observar essa interação como um sistema completo.
As primeiras imagens da aurora já mostram o potencial da missão.
E quando a câmera de raios X começar a observar regularmente a fronteira da magnetosfera, poderemos enxergar de uma forma inédita a região onde o Sol encontra o escudo invisível da Terra.
Fontes
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ESA — Science begins for Smile
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ESA — primeira filmagem ultravioleta da aurora feita pela Smile
-
ESA — primeiro teste da câmera de raios X da Smile
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ESA — missão Smile e o campo magnético da Terra
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