Ciência e Tecnologia

Satélite registra aurora gigante ao redor da Terra e vai observar nosso “escudo invisível”

Por Nilson Santos Ciência e Tecnologia

Sem tempo? Veja os principais pontos em cerca de 35 s.

Uma nova missão espacial conseguiu registrar algo que não era observado dessa forma há quase duas décadas: o anel completo das auroras ao redor do Polo Norte da Terra em luz ultravioleta.

As imagens foram feitas pela missão Smile, uma parceria entre a Agência Espacial Europeia (ESA) e a Academia Chinesa de Ciências.

O objetivo da missão vai muito além de produzir imagens bonitas. Os cientistas querem entender como o campo magnético da Terra reage quando é atingido constantemente pelo vento solar.

E uma das próximas etapas pode produzir uma imagem ainda mais impressionante: uma visão em raios X da fronteira do gigantesco escudo magnético invisível que protege nosso planeta.

Resumo rápido

  • A missão Smile registrou o anel completo da aurora ao redor do Polo Norte em ultravioleta.
  • É a primeira missão desde 2008 a conseguir esse tipo de visão completa.
  • A câmera consegue acompanhar as auroras por até 45 horas seguidas.
  • As imagens mostraram uma perturbação provocada pelo vento solar.
  • A missão também possui uma câmera de raios X.
  • O objetivo é observar a região onde o vento solar encontra o campo magnético da Terra.

Uma aurora vista de uma forma diferente

As auroras normalmente são vistas da superfície da Terra como cortinas verdes, vermelhas ou roxas atravessando o céu.

Do espaço, porém, a estrutura completa é muito diferente.

A câmera ultravioleta da Smile conseguiu registrar praticamente todo o anel de auroras que circunda o Polo Norte.

Segundo a ESA, esta é a primeira missão desde 2008 capaz de observar o anel completo em luz ultravioleta.

E existe outra diferença importante: a Smile consegue acompanhar essa região por períodos de até 45 horas consecutivas, permitindo observar como a aurora muda ao longo do tempo.

O Sol estava mexendo com o campo magnético da Terra

As primeiras imagens divulgadas foram registradas em 24 de julho de 2026, enquanto a espaçonave ainda passava pela fase de testes em órbita.

Os cientistas perceberam movimentos e alterações no anel de luz.

Essas mudanças indicavam a ocorrência de uma subtempestade na magnetosfera terrestre.

Esse fenômeno acontece quando partículas carregadas emitidas pelo Sol chegam até a Terra e interagem com nosso campo magnético.

O que é o vento solar?

O Sol não libera apenas luz e calor.

Ele também lança continuamente para o espaço um fluxo de partículas eletricamente carregadas conhecido como vento solar.

Essas partículas viajam pelo Sistema Solar em grandes velocidades e atingem constantemente os planetas.

Quando chegam à Terra, encontram uma gigantesca estrutura invisível criada principalmente pelo campo magnético do planeta: a magnetosfera.

A Terra possui um enorme escudo invisível

A magnetosfera funciona como uma espécie de barreira ao redor do planeta.

Ela desvia grande parte das partículas carregadas provenientes do Sol e ajuda a proteger a atmosfera e a superfície terrestre.

Mas esse escudo não é rígido.

Quando o vento solar fica mais intenso, a magnetosfera pode ser comprimida no lado voltado para o Sol e alongada na direção oposta.

Parte da energia acumulada nessa interação pode acabar sendo liberada em direção às regiões polares.

É justamente aí que surgem muitas das auroras.

Uma tempestade pode literalmente deformar esse escudo

Durante uma subtempestade, o vento solar pressiona as linhas do campo magnético terrestre.

Essas linhas podem ser comprimidas e reorganizadas, liberando partículas energéticas em direção aos polos.

Quando essas partículas atingem átomos e moléculas da atmosfera terrestre, parte dessa energia é liberada na forma de luz.

O resultado é o espetáculo que conhecemos como aurora boreal no Hemisfério Norte e aurora austral no Hemisfério Sul.

A Smile quer fazer algo ainda mais impressionante

A missão possui quatro instrumentos científicos diferentes.

Um deles é o Soft X-ray Imager, ou SXI, uma câmera projetada para observar raios X.

O equipamento deverá estudar a região conhecida como magnetopausa.

Essa é justamente a fronteira onde o vento solar encontra a magnetosfera da Terra.

Em vez de observar apenas um pequeno ponto dessa região, os cientistas querem obter imagens amplas da interação entre o Sol e o campo magnético terrestre.

Mas como é possível tirar uma imagem em raios X do campo magnético?

O campo magnético em si não brilha como uma lâmpada.

O que os instrumentos conseguem observar é o resultado da interação entre partículas do vento solar e átomos presentes próximos à magnetosfera.

Essa interação pode produzir emissão de raios X.

Ao registrar essa radiação, os cientistas conseguem reconstruir visualmente partes da estrutura e acompanhar como ela muda enquanto o vento solar varia.

A câmera já foi testada usando estrelas que explodiram

Antes de começar suas observações científicas da Terra, a câmera de raios X da Smile precisou passar por testes.

Para isso, os pesquisadores apontaram o instrumento para alguns dos objetos mais energéticos do Universo.

Um deles foi Cassiopeia A, o remanescente de uma estrela que explodiu a cerca de 11 mil anos-luz da Terra.

A câmera também registrou o remanescente de supernova N132D, localizado na Grande Nuvem de Magalhães, a aproximadamente 160 mil anos-luz.

Esses objetos extremamente quentes emitem grandes quantidades de raios X, tornando-os bons alvos para testar o instrumento.

Primeira imagem do escudo da Terra pode chegar em breve

A câmera SXI ainda está passando por ajustes porque, quando aponta para a Terra, recebe uma quantidade maior de luz indesejada do que os cientistas gostariam.

As equipes estão realizando alterações no software e nas configurações do instrumento para reduzir esse problema.

A ESA afirma que a luz indesejada deverá diminuir naturalmente conforme a geometria da missão muda durante a aproximação do inverno no Hemisfério Norte.

A expectativa é que as melhores condições ocorram por volta de meados de outubro de 2026.

Nesse período, a Smile poderá tentar produzir uma de suas primeiras boas imagens da magnetopausa ou da região polar conhecida como cúspide magnética.

Por que isso é importante para quem está aqui na Terra?

O clima espacial não é apenas uma curiosidade científica.

Grandes tempestades solares podem afetar satélites, sistemas de comunicação, GPS e outras infraestruturas tecnológicas.

Compreender melhor como a magnetosfera reage ao vento solar pode ajudar pesquisadores a melhorar modelos utilizados para estudar e prever eventos de clima espacial.

A Smile deve observar centenas dessas perturbações durante sua missão.

É como observar uma batalha que sempre aconteceu acima de nós

O vento solar atinge nosso planeta continuamente há bilhões de anos.

Ao mesmo tempo, o campo magnético terrestre atua desviando grande parte dessas partículas.

A diferença agora é que cientistas estão ganhando uma nova maneira de observar essa interação como um sistema completo.

As primeiras imagens da aurora já mostram o potencial da missão.

E quando a câmera de raios X começar a observar regularmente a fronteira da magnetosfera, poderemos enxergar de uma forma inédita a região onde o Sol encontra o escudo invisível da Terra.

Fontes

Quer acompanhar o futuro da tecnologia?

Veja no BaratoTech notícias e análises sobre ciência, inovação, IA, espaço, energia, robótica e tecnologias que podem impactar o que você vai usar nos próximos anos.

Ver Ciência e Tecnologia