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James Webb revela como planeta gigante sobreviveu à morte de sua estrela

Por Nilson Santos Ciência e Tecnologia

Um planeta gigante conseguiu sobreviver à transformação violenta de sua estrela e, bilhões de anos depois, terminou orbitando muito perto do que restou dela. Agora, observações do Telescópio Espacial James Webb ajudam a explicar como isso aconteceu.

O objeto é o WD 1856 b, um exoplaneta aproximadamente do tamanho de Júpiter que gira ao redor de uma anã branca — o núcleo compacto deixado por uma estrela após o fim de sua vida.

Além de encontrar sinais de metano e aerossóis na atmosfera, os pesquisadores descobriram que o planeta está muito mais quente do que deveria. Essa temperatura inesperada funciona como uma pista preservada de uma enorme mudança orbital ocorrida bilhões de anos atrás.

Atualizado em 13 de julho de 2026: os resultados foram obtidos com o instrumento NIRSpec do James Webb e publicados na revista científica Nature.

Um planeta maior que a própria estrela

O sistema está localizado a aproximadamente 80 anos-luz da Terra. A anã branca WD 1856+534 possui tamanho semelhante ao da Terra, enquanto o planeta que a orbita tem aproximadamente as dimensões de Júpiter.

Isso significa que o planeta é cerca de sete vezes maior que sua estrela. Quando passa à frente dela, o WD 1856 b bloqueia mais da metade de sua luz, criando uma oportunidade incomum para estudar sua atmosfera.

O planeta completa uma volta ao redor da anã branca em apenas cerca de 1,4 dia e está a aproximadamente 0,02 unidade astronômica dela. Na prática, sua órbita atual é cerca de 50 vezes mais próxima que a distância entre a Terra e o Sol.

James Webb detectou metano e nuvens

James Webb analisando metano na atmosfera do planeta WD 1856 b

Os pesquisadores observaram o planeta durante seu trânsito, quando ele passou à frente da estrela. Parte da luz atravessou as regiões superiores de sua atmosfera antes de chegar ao telescópio.

O instrumento NIRSpec separou essa luz em diferentes comprimentos de onda. Determinadas moléculas absorvem faixas específicas, deixando uma espécie de impressão digital química no espectro.

A análise indicou a presença de hidrocarbonetos, com o metano como principal candidato. Os modelos também apontaram aerossóis e uma camada de nuvens capaz de bloquear parte da radiação proveniente das regiões mais profundas da atmosfera.

A quantidade estimada de metano é de aproximadamente 7%, embora os valores ainda dependam dos modelos usados para interpretar os dados.

Metano não significa que exista vida

A presença de metano costuma chamar atenção porque, na Terra, parte desse gás é produzida por seres vivos. Entretanto, sua detecção no WD 1856 b não representa evidência de vida.

O WD 1856 b é um planeta gasoso gigante, com condições completamente diferentes das encontradas na Terra. Metano também pode ser formado por processos químicos sem qualquer participação biológica, como acontece nos planetas gigantes do Sistema Solar.

Neste estudo, o metano é importante principalmente porque ajuda os cientistas a reconstruir a composição, a temperatura e a história do planeta.

O planeta está mais quente do que deveria

Os dados do Webb indicam uma temperatura efetiva entre aproximadamente 390 e 412 kelvins, o equivalente a cerca de 117 °C a 139 °C.

Considerando apenas a energia atual recebida da anã branca, a temperatura esperada seria próxima de 160 kelvins, ou aproximadamente -113 °C.

Também seria esperado que um planeta tão antigo já tivesse perdido grande parte do calor interno acumulado durante sua formação. O sistema possui idade estimada em aproximadamente 10 bilhões de anos.

A diferença mostra que o WD 1856 b provavelmente passou por um grande processo de reaquecimento muito depois de sua formação.

Como ele sobreviveu à morte da estrela?

Estrelas semelhantes ao Sol aumentam drasticamente de tamanho quando esgotam o combustível de seus núcleos. Elas se transformam em gigantes vermelhas, expulsam suas camadas externas e deixam para trás uma anã branca.

O WD 1856 b não poderia ter permanecido sempre na órbita extremamente apertada em que está hoje. Caso estivesse tão próximo durante a fase de gigante vermelha, provavelmente teria sido engolido ou destruído.

Os pesquisadores consideraram diferentes explicações. Uma delas seria o planeta ter atravessado o envelope expandido da estrela e ajudado a expulsar parte desse material.

Entretanto, a temperatura atual sugere outro cenário: o planeta teria permanecido inicialmente em uma região mais distante e migrado para perto da anã branca bilhões de anos depois.

Uma órbita extrema pode ter aquecido o planeta

Representação da migração do planeta WD 1856 b após a morte de sua estrela

De acordo com os modelos, o WD 1856 b pode ter sido empurrado para uma órbita extremamente alongada devido à interação gravitacional com outros objetos do sistema.

A cada passagem próxima da anã branca, fortes forças de maré deformariam o planeta e transformariam parte da energia orbital em calor interno.

Com o tempo, essa dissipação de energia teria reduzido e arredondado sua órbita, deixando o planeta na posição atual. O reaquecimento provavelmente ocorreu entre 3 bilhões e 5,5 bilhões de anos depois da formação da anã branca.

A temperatura observada hoje seria, portanto, uma espécie de memória térmica desse evento de migração.

Qual é a massa do WD 1856 b?

As novas observações também ajudaram a restringir sua massa. Os resultados indicam algo entre aproximadamente 4,3 e 10,9 vezes a massa de Júpiter.

Esse intervalo reforça sua classificação como planeta gigante, embora ele esteja próximo da faixa de objetos muito massivos conhecidos como anãs marrons.

O objeto possui cerca de 90% do raio de Júpiter, mostrando como planetas gasosos podem manter tamanhos relativamente parecidos mesmo quando apresentam massas bastante diferentes.

O que isso pode revelar sobre o futuro do Sistema Solar?

Daqui a aproximadamente 5 bilhões de anos, o Sol também deverá se transformar em uma gigante vermelha e, posteriormente, em uma anã branca.

Mercúrio e Vênus devem ser destruídos durante essa evolução, enquanto o destino da Terra permanece mais incerto. Os planetas gigantes estão suficientemente distantes para provavelmente sobreviver, mas suas órbitas poderão ser alteradas.

O WD 1856 b mostra que a morte de uma estrela não significa necessariamente o fim completo de seu sistema planetário. Mundos sobreviventes podem ser deslocados, aquecidos e colocados em órbitas completamente diferentes.

Por que isso importa para quem acompanha tecnologia?

A descoberta demonstra como instrumentos de espectroscopia conseguem identificar moléculas em um planeta localizado a dezenas de anos-luz sem que exista uma fotografia detalhada de sua superfície.

O Webb mede pequenas diferenças na luz, enquanto sistemas de processamento e modelos computacionais separam o sinal do planeta dos efeitos provocados pela estrela, pelo telescópio e pelo próprio detector.

Essa combinação de sensores infravermelhos, óptica de alta precisão e processamento de dados também influencia tecnologias usadas em observação da Terra, câmeras térmicas, análise de materiais e monitoramento ambiental.

Para a astronomia, o resultado abre uma nova possibilidade: estudar atmosferas de planetas que continuaram existindo depois da morte de suas estrelas.

Perguntas frequentes

O James Webb descobriu o WD 1856 b?

Não. O planeta foi descoberto em 2020 com dados do telescópio espacial TESS e do antigo Spitzer. O Webb realizou a análise mais detalhada de sua atmosfera e temperatura.

O planeta possui vida?

Não existem evidências de vida. O WD 1856 b é um planeta gasoso gigante, e a presença de metano pode ser explicada por processos químicos não biológicos.

O que é uma anã branca?

É o núcleo quente e compacto que permanece depois que uma estrela semelhante ao Sol esgota seu combustível e expulsa suas camadas externas.

O Sol também se transformará em uma anã branca?

Sim. O Sol deverá primeiro se expandir como uma gigante vermelha e, depois de perder suas camadas externas, terminar como uma anã branca.

Fontes

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